quarta-feira, 9 de maio de 2012

O “Vôo da Galinha” da Economia de Cabo Verde


Depois do “milagre” econômico conseguido na década de 70, fruto dos elevados investimentos públicos financiado pelos petrodólares para a infra-estruturação do país, na década seguinte, com o primeiro choque de petróleo e com o conseqüente aumento brusco das taxas de juros internacionais, o Brasil enfrentou uma dura recessão com crise da dívida pública, a chamada de “Década Perdida”. Esse fenômeno econômico cíclico foi designado pelos Economistas de “Vôo da Galinha”, isto é, crescimento econômico considerável e sem sustentação.
Assim como, a galinha é incapaz de manter um vôo por mais de alguns segundos e, via de regra, é curto, da mesma forma, o crescimento econômico obtido não perdura e é curto. Essa falta de sustentação do vôo decorre da falta de investimento prévio ou se for interrompido temporalmente (Stop and Go).
O atual desenho da conjuntura econômica de Cabo Verde me leva a crer que, salvo erro, estamos aproximando dessa situação. Debruçaremos então sobre esse pensamento;
 - Dados do INE nos mostram um comportamento crescente do PIB desde 2002, quando o resultado efetivo foi de 4,6%, passando para 4,7% em 2003 e 5 % em 2004. Essa trajetória permaneceu pelo que, em 2005, ano eleitoral, a Economia cresceu 6,4%, com destaque para o consumo privado ( cresceu 5,3%).
- Em 2006 a nossa Economia teve um “crescimento chinês” de 10,8%, impulsionado por elevados investimentos (públicos e privados) e, também, pelo crescimento no setor bancário e da telecomunicação.
- Já em 2007 temos uma mudança dessa tendência visto que, nesse ano o PIB cresceu 7,8%, representando uma redução de 3% em relação ao ano anterior. Tal fato reflete um declínio do Investimento Estrangeiro Direto, que cresceu 58,8% em 2006 e 33,3% em 2007. No setor de construção civil e obras públicas houve crescimento de 9,9%, contra os 14% que se registrou em 2006 (INE 2007).
- Em 2008, ano de adesão do país à Organização Mundial do Comércio (OMC) e da elevação a País de Rendimento Médio, o PIB cresceu 6,1%, já sentindo os reflexos da crise internacional iniciada nesse ano.
- No ano seguinte, com o agravamento da crise e do seu impacto macroeconômico à nível nacional a economia cresceu apenas 4%. Em 2010, por conta da política anti-crise do governo central, a economia tem uma pequena e quase imperceptível recuperação, ao crescer 5,6%.
- A previsão dos analistas do INE é que o PIB se estabilize em 2011. Para 2012 a tendência é de agravamento, por conta da crise da dívida soberana na União Européia, nossos principais parceiros comerciais.
- Aliado à tudo isso temos o aumento da taxa de desemprego, aumento do déficit público e da dívida pública (que hoje situa nos 93,7% do PIB), diminuição dos investimentos (motor do crescimento) e o agravamento das contas externas.
Portanto minha gente, se esse cenário de desaceleração do crescimento econômico continuar pelos próximos anos (pelo menos até o fim dessa década) por falta de sustentação, demos, então, um “vôo de galinha”. (crescer e não manter esse crescimento). Temos de trabalhar e tomar boas medidas para que isso não aconteça!
Assim, para que esse cenário não se desemboque numa “década perdida”, ainda há tempo de colocar o pé no freio e reverter essa situação constrangedora. Uma política fiscal condizente com a realidade do país e uma política de ataque radical ao desemprego e de incentivo aos investimentos, seriam uma grande saída.

Carlos Bentub
Economista
Contacto: (238) 5936287

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Mentalidade do Santantonense

Outrodia, conversando com um grande amigo, fiz a seguinte constatação:

- O Santantonense tem a fama de ser humilde demais e, por isso, somos uma das ilhas que menos beneficia dos recursos do Governo Central (estamos no último lugar no quesito prioridades). Talvez por essa razão somos a ilha mais pobre do país (segundo dados do INE).

Pode ser que eu esteja errado, ou que você tenha outra visão acerca do assunto mas, essa é uma realidade visível! Isto porque, como dizemos no nosso querido crioulo, “ Nô tem mania de contentá que pôc”.

Pra uma ilha que quer sair do “fosso do abismo”, essa mentalidade é reprovável!

Porque será que a Ilha de Santiago está liderando essa “corrida”? Porque será que a Economia da Ilha de Santiago é mais “avançada” que a Economia do nosso querido Santo Antão? Será porque eles pensam diferente de nós? Ou será que é apenas um mero resultado do destino?

Uns devem estar a pensar que isto acontece porque, Santiago é a maior ilha do país, portanto, com um maior mercado consumidor. Outros devem estar a pensar que isso acontece porque ela é a ilha que mais atrai projectos de investimentos no país, ou por ser a capital e, portanto, por sediar o Governo Central. Outros devem estar a culpar essa política concentradora do nosso Governo.

Não que estejam errados mas, isso acontece porque, primordialmente, eles pensam de uma forma diferente da nossa! Eles têm uma mentalidade de “querer cada vez mais”. E eles exigem o suficiente pra que isso aconteça!

Sei que pode haver controvérsias com essa minha constatação mas, a mentalidade, a ideologia e a atitude, são factores que podem decidir o rumo da Economia de uma dada comunidade.

Caro Santantonense, hora de mudar a nossa mentalidade chegou! Justamente agora que o nosso país enfrenta desafios! Um deles é por sermos um país de desenvolvimento médio. Outro é por estarmos em crise! Precisamos dessa atitude e, sobretudo, criar novas ideias para que possamos enfrentar os obstáculos e progredir a Economia nacional e regional.

Temos potencial pra isso! Somos ricos em recursos como; recursos hídricos, terras de cultivo (sequeiro e regadio), bens agrícolas, segurança, turismo (principalmente o rural), ecoturismo, jovens talentosos…somos uma ilha vasta!

Tomemos a atitude de querer e exigir cada vez mais a infra-estruturação da ilha (e tem de ser de qualidade). Isto porque, a infra-estruturação gera investimentos horizontais e, com isso, suprir a carência de projectos, um dos factores para o nosso “atraso”.

A incidência de tributos e contribuições do Governo é a mesma em todas as ilhas. Portanto, pagamos o mesmo imposto!

“Querer e exigir cada vez mais”. Essa é a nova ordem, essa é a nova mentalidade que precisa ser adoptada!

Corajoso de Santo Antão, posso contar consigo?

Carlos Bentub

Economista

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

...Mas o que é a Política?

Muitas pessoas na nossa sociedade encaram a Política como sendo uma coisa errada, há um certo preconceito, eu diria até a encaram como um “pecado”. Por isso, resolvi debruçar sobre esse tema tão importante para um país, como também, para a sociedade civil.

Política é a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados. A aplicação dessa arte nos negócios internos da nação é a Política Interna ou aos negócios externos é a Política Externa. Nos países com regimes democráticos, como Cabo Verde, a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância.

O termo política deriva do grego antigo “Politéia” que indicava todos os procedimentos relativos à Polís ou Cidade-Estado (Atenas). Como sendo uma ciência social, trata dos assuntos que dizem respeito à forma de organização da sociedade, trata das relações dos homens na comunidade em que estão inseridas, preza para a coletividade, baseado numa postura normativa. Por isso, nas palavras de Aristóteles, “O homem é um animal político”.

Podemos indicar algumas acepções ao conceito Política:

· No sentido comum, compreende a arte de guiar ou influenciar o modo de governo pela organização de um partido político, pela influência da opinião pública, pela aliciação de eleitores;

· Na concepção erudita, política “consiste nos meios adequados à obtenção de qualquer vantagem” (Hobbes) ou “o conjunto dos meios que permitem alcançar efeitos desejados” (Russel) ou “a arte de conquistar, manter e exercer o poder, o governo”, que é a definição dada por Maquiavel em “O Principe”.

· Política pode ser ainda, a orientação ou a atitude de um governo em relação a certos assuntos e problemas de interesse público: Política financeira (fiscal e monetária), política educacional, política social, política comercial, etc...

· Na concepção moderna, é a ciência moral normativa do governo da sociedade civil.

A política, como forma de atividade ou práxis humana, está intrinsecamente ligada ao poder. O poder político é o poder do homem sobre o homem, pois “consiste nos meios adequados à obtenção de qualquer vantagem” (Hobbes) ou “consiste num conjunto de meios que permitem alcançar os efeitos desejados” (Russel).

A Concepção Aristotélica distingue política e poder baseado no interesse de quem exerce o poder: o poder paterno se exerce pelo interesse dos filhos; o despótico, pelo interesse do senhor; o político, pelo interesse de quem governa e quem é governado. Na Concepção Jus naturalista essa distinção baseia-se na legitimação: o fundamento do poder paterno é a natureza, do poder despótico o castigo por um delito cometido, do poder civil o consenso.

A hipótese Jus Naturalista abstrata adquire profundidade histórica na teoria de Estado de Marx e de Engels, segundo o qual a sociedade é dividida em classes antagônicas e as instituições têm a função primordial de permitir à classe dominante manter seu domínio. Mas, esse objetivo só pode ser alcançado na estrutura do antagonismo de classes pelo controle eficaz do monopólio da força; é por isso que, cada Estado é, e não pode deixar de ser, uma ditadura.

Podemos distinguir três grandes tipos de poder:

· Poder Econômico – é o que se vale da posse de certos bens, necessários ou considerados como tais, numa situação de necessidade para controlar aqueles que não os possuem. Consiste também na realização de um certo tipo de trabalho. A posse dos meios de produção é uma enorme fonte de poder econômico para aqueles que os têm em relação a aqueles que não os têm: o poder do chefe de uma empresa deriva da possibilidade que a posse dos meios de produção lhe oferece o poder de comprar a força de trabalho a troco de um salário. Portanto, quem possui abundância de bens é capaz de determinar o comportamento de quem não os têm pela promessa de concessão de vantagens.

· Poder Ideológico – se baseia na influência que as idéias da pessoa investida de autoridade exerce sobre a conduta dos demais: deste tipo de condicionamento nasce a importância social daqueles que sabem, quer os sacerdotes das sociedades arcaicas, quer os intelectuais ou cientistas das sociedades evoluídas. É por eles, pelos valores que defendem ou pelos conhecimentos que comunicam que ocorre a socialização necessária à coesão do grupo. Portanto, o poder dos intelectuais e cientistas emerge na modernidade quando as ciências ganham um estatuto preponderante na vida política da sociedade, influenciando enormemente o comportamento das pessoas.

· Poder político – fundamenta na posse dos instrumentos com os quais se exerce a força física; é o poder coator no sentido mais restrito da palavra. A possibilidade de recorrer à força distingue o poder político das outras formas de poder. Portanto, a característica mais notável é que, o poder político, detém a exclusividade do uso da força em relação à totalidade dos grupos sob sua influência.

A política, quando bem feita ou exercida, constitui um dos principais instrumentos para o progresso econômico e social. Por essa razão, vamos deixar de lado esse preconceito principalmente agora que somos um país de desenvolvimento médio (PDM). Precisamos de grandes idéias, precisamos de políticas certas aos problemas e desafios que a nossa sociedade enfrenta. Mas, para isso, precisamos mudar a nossa mentalidade, o nosso modo de pensar.

Aos nossos governantes (local e nacional), exijo mais transparência no exercício de vossas funções, mais compromisso com a sociedade civil, mais seriedade na execução dos projetos financiados com impostos pagos pelo cidadão ativo cabo-verdiano. E vai um conselho: quando o barato sai caro, alguém tem de pagar a conta... E a corda arrebenta sempre pelo lado mais fraco, que é o povo. E o povo detém o Poder de Voto...

Carlos Bentub

Economista.

sábado, 2 de abril de 2011

À tí, jovem empreendedor de Ribeira Grande!

Muitos falam sobre o jovem empreendedor como se isso fosse um fenômeno contemporâneo. Mas se analisarmos nossa história evolutiva, veremos que ele é, na verdade, um dos personagens mais antigos da nossa espécie – além de fundamental para que atingíssemos o atual grau de desenvolvimento da humanidade.

No nosso ambiente ancestral, grupos humanos se organizavam em bandos de caçadores e coletores que atuavam de maneira organizada para obter o sustento da comunidade. Mas de nada adiantava um grande número de bons manejadores de lanças se não houvesse um indivíduo com habilidade para coordenar uma estratégia eficiente para cercar a presa. Foi precisamente aí que surgiu a necessidade de um sujeito que fosse bom na coordenação da caçada (ou de uma eficiente operação de coleta), independente de sua própria habilidade na atividade de caçar ou coletar propriamente dita.

Muito tempo depois, inventamos a agricultura, o comércio, a escrita, as leis... Continuamos, entretanto, a ter a necessidade de indivíduos que liderassem empreendimentos análogos aos que praticávamos há dezenas de milhares de anos. No atual grau de desenvolvimento, centrado no sistema capitalista de livre iniciativa, esse sujeito é o empreendedor – que, a priori, pode ser jovem ou velho, tanto faz. Acontece que, já no ambiente ancestral, havia uma diferença sutil entre os líderes de caçadas mais novos ou mais velhos, que tem paralelo entre os jovens empreendedores e aqueles já estabelecidos há muito tempo.

A diferença entre jovens e velhos empreendedores não se restringe ao número de fios de cabelo branco na cabeça, mas principalmente ao comportamento de um e de outro. Um jovem empreendedor, assim como um jovem líder de caçadores, é um sujeito mais impetuoso e disposto a assumir riscos e a inovar. O empreendedor mais velho, por sua vez, tem um comportamento mais seguro e menor propensão ao risco. E uma sociedade saudável terá estes dois tipos de lideranças empresariais convivendo de modo a obter um equilíbrio que maximize a eficiência total do sistema.

Deves estar a perguntar o que tudo isso tem haver contigo. Pois é meu caro, diante das perspectivas econômicas que vivemos hoje no nosso país, onde 4 em cada 10 jovens estão sem emprego (Dados do INE), chegou a hora de você, jovem de Ribeira Grande, descobrir o espírito empreendedor que há dentro de si. Criatividade e idéias para tal não faltam.

Deves estar também a dizer, “Se as autoridades locais e centrais não me dão uma oportunidade, como vou ser empreendedor?”. Pois é, isso é uma das minhas críticas à política empreendedora do nosso país, onde o Estado é o “guru” da economia, mas cabe a você correr atrás dos meios (financiamento, estudo de mercado e do produto, investimento, estrutura de custos, legislação, etc.) e acreditar no seu potencial para atingir a sua meta. É claro que terás de enfrentar obstáculos como estrangulamentos estruturais e conjunturais de nossa Economia, mas tudo dependerá, principalmente, do seu empenho nesse processo.

Como deves saber Santo Antão é hoje uma das ilhas mais pobres do arquipélago, por haver uma escassez de grandes projetos de investimento na região. Quem sabe agora não é um grande momento de colocares em prática, as tuas idéias e assim dar um “up” na economia regional do concelho e da ilha, de um modo geral? Pense nisso!

Adaptando a afirmação de Jhon F. Kennedy (ex-presidente norte-americano) à realidade caboverdeana, “Não digamos apenas o que Cabo Verde deve fazer por nós, mas também, o que podemos e devemos fazer por ele”.

Carlos Bentub

Economista

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A década da criação de emprego e redução do desemprego em Cabo Verde

A década de noventa criou mais postos de trabalhos do que as décadas de 80 e de 2000 juntas. O quadro seguinte mostra a evolução do emprego e desemprego entre 1980 e 2009, por períodos de 10 anos.



A década de 80 criou um número importante de postos de trabalho, mas ficou bem longe da dinâmica de crescimento do emprego dos anos noventa, como se pode ver no gráfico seguinte.


Evolução do emprego 1980-2009


Entre 1980 e 1990 foram criados 27.035 empregos (líquidos). Nos anos 90 foram criados 52.105 postos de trabalho e na presente década só foram criados 12.341 empregos. O gráfico ilustra bem a diferença de dinâmica entre as três décadas. Na realidade o número de empregos criados entre 1990 e 2000 excedeu em 32% a totalidade dos postos de trabalho criados nas décadas de 80 e 2000 combinadas.

O desemprego evoluiu em sentido inverso. O gráfico abaixo mostra o número de desempregados em cada um dos anos referenciados.


Evolução do desemprego 1980-2009


A presente década, 2000 – 2009 acrescentou o maior número de desempregados dos últimos trinta anos. Efectivamente, entre 1980 e 1990, o número de desempregados aumentou de 10.524. Na década de 90, foram acrescentados mais 3.259 empregados ao número existente no início da década. Nos anos 2000 até ao presente, mais 11.120 desempregados foram engrossar o exército dos desempregados existentes em finais do ano 2000. Ou seja, os novos desempregados da década de 2000 representam 81% do total de novos desempregados das duas décadas anteriores.

O quadro seguinte apresenta a síntese do que acima se disse.



Em resumo, a actual década, sob governo do Paicv, acrescentou o menor número de postos de trabalho e o maior número de desempregados dos últimos 30 anos do Cabo Verde independente.

Em sentido inverso, a década de 90, sob governo do MpD, acrescentou mais postos de trabalho do que as restantes duas décadas em conjunto, e menos desempregados do que qualquer das décadas anteriores

O gráfico abaixo compara a evolução do emprego e desemprego em cada década em termos percentuais.

Evolução do emprego e desemprego, 1980-2009,
(em percentagem )



O emprego aumentou 43% entre 1980 e 1990, mas no mesmo período o desemprego aumentou 67%. Nos anos 90, foi o inverso. O emprego aumentou 58% enquanto o desemprego registou um agravamento de 12%. Na presente década, o desemprego sofreu um agravamento de 38% para um aumento de apenas 9% do emprego.

Compreende-se, assim, que a taxa de desemprego ( 15 anos e +) tenha aumentado de 20% em 1980 para 23% em 1990, e tenha regredido para 17% em 2000 para subir de novo para 21% em 2009.

Carlos Bentub
Economista

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A recuperação da economia global e a criação de nova moeda-reserva internacional

Já em 1944, durante a realização do Acordo de Bretton Woods, Keynes criticou a idéia de os países participantes (45 países) assumirem o dólar como a moeda-reserva internacional, visto que, se a economia dos Estados Unidos entrar em uma profunda crise, as outras também sofreriam. Ele propôs assim a criação de uma moeda independente de qualquer nação, denominado de Bankor. Realmente, depois de 64 anos, a sua previsão se concretiza, com essa crise atual que assola todos os mercados mundiais.
Muitos países, com destaque para a China – principal comprador da dívida pública dos Estados Unidos e a maior fonte de financiamento do déficit fiscal do governo norte-americano –, defendem a criação de uma nova moeda-reserva para substituir o dólar, mostrando assim, a perda de credibilidade para com a divisa. O objetivo principal dessa tentativa é criar uma nova divisa que não esteja vinculada a um único país e que possa permanecer estável no longo prazo. Um exemplo seria, os Direitos Especiais de Saque (DES) do Fundo Monetário Internacional (FMI), uma moeda independente, formada por uma cesta de moedas fortes – euro, dólar, iene japonês e libra esterlina. A moeda é constituída da seguinte forma: 44% para o dólar, 34 % para o euro, 11% para o iene e 11% para a libra esterlina.
A pergunta que se coloca é se outra moeda pode, realmente, substituir o dólar como principal moeda-reserva. Alguns especialistas se mostram pessimistas, como é o caso de Ahmed Rahnema, professor de finanças do IESE Business School. Segundo ele há dúvidas sobre se esta substituição é possível na prática.
Primeiramente, não se deve esquecer que os DES são um derivado do dólar e outras moedas fortes. Portanto, os DES não constituem uma moeda independente e também, nenhuma das principais forças políticas no FMI (Estados Unidos, União Européia, Reino Unido e Japão) apoiaria a sua criação.
Em segundo lugar, qualquer tentativa de substituir o dólar por outras moedas partindo das autoridades chinesas significaria uma grande venda de ativos lastreados em dólar e isso provocaria uma desvalorização dessa divisa no mercado financeiro. Seria um grande erro cometido pelos chineses.
Em terceiro lugar, enquanto o dólar for a moeda do comércio internacional e a economia norte-americana for a maior do mundo, os bancos centrais dos outros países continuarão a manter boa parte de suas reservas em dólar. Será, portanto, difícil mudar essa tendência.
Em quarto lugar, nenhuma dessas moedas fortes aptas a substituir o dólar como divisa de reserva dispõe de um mercado de títulos com o mesmo nível de liquidez do dólar. Assim, o mercado das dívidas expressa em dólares continuará a ser o de maior liquidez no futuro.
Em quinto lugar, se o objetivo da substituição do dólar como moeda-reserva internacional for o de obter maior rentabilidade, nessa época de crise, não parece factível essa substituição. Isso tornaria uma “bola de neve”.
Finalmente, o fator político interfere nessa decisão de escolher entre uma e outra moeda internacional. Como os E.U. A constituem o principal sócio político, econômico e militar de muitos países do Médio Oriente, Ásia e América, muitos dessas economias continuarão a manter grande parte de suas reservas internacionais em dólar, talves não por razões econômicas, mas por razões políticas. Portanto, a divisa norte-americana manterá sua hegemonia perante as outras moedas.
Ao meu ver, a recuperação da economia global não exige apenas a criação de uma nova moeda de transações internacionais. Exige também, uma regulação dos mercados financeiros e uma coordenação entre os países que permite a reversão dos desequilíbrios macroeconômicos e o restabelecimento da confiança, em termos mundiais.



Artigo elaborado por:

- Carlos Bentub, graduando em Economia pela PUC-Campinas, São Paulo, Brasil.



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sexta-feira, 13 de março de 2009

Cabo Verde: Um país de Desenvolvimento Médio

A experiência nos ensina que o objetivo principal de qualquer país é alcançar o desenvolvimento econômico, baseado fundamentalmente em políticas de ordem socioeconômica. Também, ela nos mostra que atingir tal objetivo não é tarefa fácil e não acontece da noite pro dia. Depende, neste caso, de muito esforço, trabalho e dedicação nomeadamente do povo de uma determinada Nação.
Tomando isso como pano de fundo, depois de 33 anos de independência, Cabo Verde comemora uma das melhores conquistas de sua história. Em janeiro deste ano, o arquipélago foi integrado ao grupo de Países de Desenvolvimento Médio (PDM). Portanto, demos mais um passo em direção ao desenvolvimento econômico. Mas é importante salientar que, apesar disso, ainda Cabo Verde é considerado um país menos avançado, isto é, apresenta uma economia vulnerável. Certamente, muitas coisas precisam ser feitas ou mudadas para que possamos atingir esse objetivo final que tanto sonhamos.
Esta recente conquista, aliado à estabilidade econômica, social e política e ao bom desempenho dos indicadores macroeconômicos (PIB, IDH, etc...), constituem não apenas sinais de amadurecimento da nossa Economia, mas também, motivos de orgulho para todos os caboverdeanos.
Sendo um país praticamente desprovido de recursos naturais e, sobretudo com uma economia dependente (vulnerável), para continuar com essa trajetória ascendente, as autoridades caboverdeanas juntamente com as Nações Unidas, com a iniciativa privada e com os principais financiadores de projetos de desenvolvimento (Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento, FMI, etc...), devem “unir” cada vez mais, mobilizando recursos para melhorar principalmente as nossas infra-estruturas. Investimentos em infra-estruturas viáveis são considerados peças chaves para o crescimento e desenvolvimento econômico; investimentos pesados no capital humano (educação e saúde) são indispensáveis nesse momento já que, quanto mais qualificada for a mão-de-obra, maior é a produtividade e quando assim, maiores são as chances de o país crescer e apresentar taxas decrescentes de Desemprego e Analfabetização; medidas que melhoram a nossa balança comercial ( que é deficitária), seriam atitudes inteligentes tomadas pelo Governo pois, tornariam o país menos vulnerável à choques externos; a recuperação da credibilidade política seria outra medida fundamental para seguir essa trajetória ascendente. Hoje é comum na nossa sociedade, o cidadão não apostar mais nas promessas políticas. Com isso, as autoridades políticas têm de contribuir para tal processo de recuperação por meio da transparência e responsabilidade; e por fim, a criação de mais programas sociais destinados à população carente reduzindo assim, as taxas de pobreza e exclusão social que são muito altas.
Estatísticas oficiais mostram que o arquipélago vem recebendo investimentos externos recordes em áreas importantes como o Turismo (principal componente do PIB) que por sua vez está provocando um “efeito dominó” na nossa economia, ou seja, o crescimento desse sector está puxando o crescimento de outros e gerando Emprego e Renda para a população. Assim, seguindo essas medidas acima mencionadas, a confiança do investidor continuará aumentando e repercutindo assim, de forma positiva na conjuntura econômica e no crescimento contínuo do país.
O desenvolvimento de Cabo Verde não depende apenas de Políticas Públicas. Depende também da boa vontade e dedicação do povo caboverdeano, por isso, devemos contribuir de forma direta ou indireta. Adaptando a afirmação de Jhon F. Kennedy (ex-presidente norte-americano) à realidade caboverdeana, “Não digamos apenas o que Cabo Verde deve fazer por nós, mas também, o que podemos e devemos fazer por ele”.
Artigo elaborado por:
Carlos Bentub, graduando em Economia pela PUC-Campinas, São Paulo, Brasil.